MEMÓRIA
"Não digam que fui rebotalho, que vivi à margem da vida. "
“Favela, a vida na pobreza” (1971) é um documentário raro, que apresenta cenas de Carolina na favela da Canindé. O filme é uma produção alemã e permaneceu inédito no Brasil até o centenário da autora, em 2014. Para celebrar o aniversário de 111 anos de Carolina, disponibilizamos temporariamente seu conteúdo na íntegra:
Carolina Maria de Jesus possui uma trajetória ampla nos arquivos jornalísticos da imprensa brasileira. A autora foi fotografada, entrevistada e contribuiu com jornais de múltiplas formas. Nessa seção, compartilharemos algumas dessas reportagens marcantes.
Carolina ganha mundo: a matéria da Paris Match
Em 1962, dois anos após a publicação de “Quarto de despejo”, Carolina foi matéria da revista francesa Paris Match e tornou-se mais conhecida na Europa. Foi através dessa revista que a escritora martinicana Françoise Ega encontrou a autora brasileira e remeteu a ela o seu livro “Cartas a uma negra”.
Leia a seguir a tradução da reportagem.
ELA ESCREVEU UM BEST-SELLER EM PAPEL RECOLHIDO NA LIXEIRA
Carolina Maria de Jesus, mãe de três crianças, só frequentou a escola por dois anos. Mas seu diário, que revela a miséria de uma favela em São Paulo, perturbou o Brasil e agitou os cortiços que descrevia.
Euclides disse:
– Você não vai escrever? Não vai catar papel? Levanta para escrever a vida dos outros!
Eu levantei, peguei um pau de vassoura e fui falar-lhe para não aborrecer-me, que eu estou cansada de tanto trabalhar. E dei umas cacetadas no barraco. Ele se calou e não disse mais nada.
Euclides não passava de um senhorzinho triste e suas acusações eram meros raciocínios de bêbado. Além disso, era um mau vizinho. Dirigindo-se a Carolina Maria de Jesus, negra pobre da favela do Canindé, um lugar miserável de São Paulo, queria lhe dizer que seria melhor que ela tratasse de cuidar de seus três filhos, que criava sozinha, e parasse de escrever, nas folhas de velhos cadernos recolhidos do lixo, o que se passava na comunidade.
À época, no dia 12 de julho de 1959, Carolina tinha 43 anos. Morava na favela há nove e há quatro escrevia um diário. Estava no 12º caderno. Todos os anteriores estavam guardados no guarda-comida. Eram, na verdade, o único “alimento” que o móvel guardava. Quanto ao resto, ela deixava nas mãos de Deus e do serviço de limpeza urbana de São Paulo, pois tirava seu sustento em parte do que recolhia do lixo e, com sorte, do dinheiro que ganhava vendendo, a um cruzeiro o quilo, papel velho coletado de madrugada nas calçadas das ruas comerciais.
O malvado Euclides, um dos 300 moradores da favela do Canindé, apenas uma das 12 favelas da cidade de São Paulo (há no Brasil 300 favelas), não se deixava impressionar nem pela cor da pele de Carolina, nem pela miséria, igual à sua própria, nem por aquilo que de fato a tornava insuportável, perigosa, mesmo nesse universo de barracos construídos com tábuas, papelão e lona esticada: a instrução primária.
Esta era ao mesmo tempo a vantagem e a maldição de Carolina, a perseguida da favela. Esse bem inestimável ela obtivera entre os 7 e os 9 anos, no tempo em que ainda era uma criança quase feliz, na pequena cidade de Sacramento, no interior de Minas Gerais. Frequentava uma escola religiosa e a princípio não gostara das letras do alfabeto. Mas a professora branca, d. Salvina, desenhou no quadro-negro a figura de um homem que ameaçava uma menina com um tridente e advertiu Carolina:
Este homem é o inspetor, e as crianças que não aprenderem a ler até o fim do ano vão ser furadas com um tridente.
Carolina ficou em silêncio e, estimulada pelo medo, se esforçou. Daí a três meses, na saída da escola, descobriu que já sabia ler. Num letreiro de cinema que a fascinava diariamente, conseguiu decifrar: “Hoje Puro sangue, com Tom Mix”.
Carolina espalhou a notícia por toda a cidade: “eu sei ler”, gabou-se. Logo se tornou a primeira da turma, composta por brancos e negros. E a primeira a descobrir outro milagre da humanidade de todas as cores: também sabia escrever.
UMA BOLSA VELHA LHE SERVIA DE CORTINA
Mas era órfã de pai, e sua mãe, para ganhar mais, precisou trocar o emprego na cidade pelo trabalho numa fazenda. O campo, com árvores, pássaros e silêncio, foi o primeiro lazer de Carolina. Um lugar que ela não esqueceria facilmente, mas que aos 16 anos foi obrigada a abandonar, porque sua mãe teve que ir em busca de melhores oportunidades de trabalho no estado de São Paulo, e era preciso acompanhar a mãe, principalmente quando se é pobre e negra.
São Paulo é rico e branco. Carolina deixa a mãe trabalhando como doméstica em Franca e segue com sua bagagem para a capital do estado. Os hotéis com seus letreiros luminosos a intimidam tanto que prefere dormir na rua. Mas, quando conseguia emprego como doméstica, logo a despediam porque lia à noite. Um marinheiro português lhe deu o pequeno João. Assim que Carolina o teve, o pai foi para o mar e nunca mais voltou.
Não há trabalho para empregada com filho. Querida, no seu caso só há uma solução: a favela do Canindé. Ali ninguém olha para os outros. E a pobreza redime muitos pecados.
É no fim de 1947 que começa verdadeiramente a paixão de Carolina Maria de Jesus, que não era santa. Começou carregando sua casa nas costas, tábua por tábua. Tábuas que ela roubava, com o consentimento de Deus, do canteiro de obras de uma igreja em construção a oito quilômetros dali. À noite, quando tudo dormia nos outros barracos, ela fixava na terra, a golpes de martelo, cada viga. Depois improvisou um teto, e latas de conserva taparam os buracos. Obteve com esforço um cômodo de nove metros quadrados e depois um “quarto” de quatro metros quadrados para o bebê. Tinha janela, sem vidraças. Uma bolsa velha fazia as vezes de cortina. Conseguiu tudo isso e mais: dois outros filhos. José Carlos e logo depois Vera, uma menininha nascida da sua fome.
No dia 15 de julho de 1955 Carolina começa a escrever seu diário. Não para o público. Quem iria querê-la, fosse nos livros ou na vida, além da favela e do lixão de São Paulo? Escreve, com seus dedos inchados de lavar roupa no rio Tietê, o mais belo título que lhe ocorre: Quarto de despejo. E a partir daí tem início uma longa queixa sem fim: as dores de uma empregada doméstica negra na rua mais pobre do mundo, a Rua A. Ela mora no número 9.
Aniversário da minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização de nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.
E já no dia 16 de julho:
– Vai buscar água, mamãe!
Levantei. Obedeci a Vera Eunice. Fui buscar água. Fiz o café. Avisei as crianças que não tinha pão. Que tomassem café simples e comesse carne com farinha. Eu estava indisposta. Resolvi benzer-me. Vera tem sapatos, os que a Providência lhe deixou na lixeira. Mas sua mãe não tem. Os pés magros tocam a cada noite as imundices e se machucam com as asperezas do asfalto que os bem calçados imaginam que é liso e macio.
Há, no entanto, compensações. Um “senhor” deu 100 cruzeiros a Vera. É um raio de sol em 31 de julho: Hoje eu estou cantando. Estou alegre e já pedi aos vizinhos para não me aborrecer. Todos nós temos o nosso dia de alegria. Hoje é o meu!
Dia 17 de maio: Levantei nervosa. Com vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver? Será que os pobres de outro país sofrem igual aos pobres do Brasil?
Dia 21: Achei um cará no lixo, uma batata-doce e batata solsa. Cheguei na favela os meus meninos estavam roendo um pedaço de pão duro. Pensei: para comer estes pães era preciso que eles tivessem dentes elétricos.
AMANHÃ NÃO VOU TER PÃO
Não tinha gordura. Pus a carne no fogo com uns tomates que catei na Fábrica Peixe. Pus o cará e a batata. E água. Assim que ferveu eu pus o macarrão que os meninos cataram no lixo. Amanhã não vou ter pão. Vou cozinhar batata-doce.
No dia 3 de outubro do ano seguinte: “Sinto frio”. Mas no dia 20:
Penetrou um espinho no meu pé e eu parei para retirá-lo. Depois amarrei um pano no pé. Catei uns tomates e vim pra casa. Agora eu estou disposta. Parece que trocaram as peças do meu corpo. Só a minha alma está triste.
Contra a tristeza da alma cairia bem o amor, tal como é descrito nos belos livros que vemos nas vitrines e nas revistas de luxo catadas no lixo, que, à razão de um cruzeiro a libra, trazem um pouco de pão.
O amor poderia ser esse cigano de têmporas grisalhas que, quando as crianças dormem, desliza sua alta silhueta pela porta humilde do barraco de Carolina.
Carolina se põe na defensiva. A toda hora ela foge do problema invocando sua miséria. Mas no dia 11 de janeiro anota:
Não estou gostando do meu estado espiritual. Não gosto da minha mente inquieta. O cigano está perturbando-me. Mas eu vou dominar esta simpatia. Já percebi que ele quando me vê fica alegre. E eu também. Eu tenho a impressão que eu sou um pé de sapato e que só agora encontrei o outro pé.
De vez em quando acontecia comer bem. No dia 15 de janeiro Carolina exulta:
Hoje eu estou contente. Ganhei dinheiro. Contei até 300! Hoje eu vou comprar carne. Atualmente quando o pobre come carne fica rindo à toa.
Mas o cigano voltou ao barraco. Não era um anjo e ninguém lhe sorriu. É preciso que se vá. E quando partiu, sob o lampião de querosene Carolina fez confidências ao seu diário:
Eu não adormeci, porque estava super nervosa. Estou decidida: quando o cigano voltar, hei de apresentá-lo à Dona Lei. Dizem que cigano não pode ficar parado. Mas a Dona Lei há de fazer ele estacionar uma temporada atrás das grades. Ele prometeu trazer-me um presente. E eu prometo dar-lhe um: a masmorra.
O cigano não voltou, sem dúvida impedido por um saudável pressentimento. Mas nem por isso a vida na favela melhorou. No dia 2 de maio é primavera, e mesmo assim:
Pensei no senhor Tomás que suicidou-se. Mas se os pobres do Brasil resolver suicidar-se porque estão passando fome, não ficaria nenhum vivo.
O DIÁRIO DE CAROLINA: 26 CADERNOS
No dia 5 de maio – acontecimento que fez acorrer todo o pequeno universo da favela – Carolina decide sacrificar o maravilhoso animal que há seis meses, a despeito da inveja geral, ela criava diante de sua porta, privando-se a si própria e a seus filhos para levá-lo a um peso razoável: o leitão. As crianças testemunharam a execução. Pressionam a mãe negra com perguntas: “Parece uma pessoa morta”, observa João, o mais velho. “Então o porco já foi homem?” grita José Carlos.
Toda a favela ameaça invadir a “casa” de Carolina:
Pensei: e se eles invadir o quintal? Resolvi levar o toucinho para dentro de casa o mais depressa possível. Fitei as tábuas do barraco, que já estão podres. Se eles invadir, adeus barraco. Juro que fiquei com medo dos favelados.
Houve uma festa na favela do Canindé. Homens e mulheres de sapatos se aventuraram no labirinto de barracos que se mantêm de pé apenas apoiando-se uns nos outros. Não só curiosos, mas também autoridades em seus grandes carros importados que não fazem inveja a ninguém porque não pertencem àquele mundo. É a inauguração, com certa pompa, do campo de futebol da favela. Na verdade,
não passa de um parquinho: são balanços, muitos balanços. Os representantes da prefeitura se esforçam por sorrir, mas vê-se que estão furiosos: os lindos balanços que mandaram instalar para distração das crianças foram ocupados por adultos e velhos que por nada deste mundo abandonariam seus lugares, felizes de desafiar as autoridades que não lhes davam nem pão, nem água, nem luz.
Audálio Dantas, repórter do jornal Folha de S. Paulo, se aproxima. Carolina, em primeiro plano, se indigna:
– Veja, senhor, o tipo de animais com que sou obrigada a conviver. Vou botar todos eles no meu diário.
– A senhora tem um diário? espanta-se Dantas, olhando a pobre mulher em farrapos, com pernas negras muito finas e um olhar febril sob um lenço que acentua ainda mais a magreza do rosto.
– É um diário que eu mantenho. Venha até o meu barraco que verá meus cadernos.
Há 26 cadernos. Dantas leva os 15 primeiros. No dia seguinte, a Folha de S. Paulo publica em duas colunas os primeiros trechos das memórias de Carolina Maria de Jesus.
DEDICATÓRIA FEROZ AO SENHOR SENADOR
Nos arranha-céus com colunas de mármore onde habitam exportadores de café, nas villas luxuosas da periferia ou simplesmente nas ruas com verdadeiras mansões que cercam as favelas como se as desafiassem, naquela manhã o espanto era o mesmo: o que é este mundo tão próximo e tão distante? Que inferno é esse e quem é, afinal, esse anjo negro que escreve: “Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser considerado herói.”?
Audálio Dantas conhece todas as misérias do Brasil, misérias na escala de um país mais vasto que os Estados Unidos (sic). Mas nunca ouvira uma queixa tão dilacerante. Carregando como um tesouro os cadernos pobres de Carolina, bate à porta dos editores de São Paulo. O quinto procurado aceita publicá-lo. A primeira edição teve dez mil exemplares, o que nem mesmo Jorge Amado, o maior escritor brasileiro, conseguira. No dia do lançamento do livro de 220 páginas, Carolina, de roupa nova e sapatos de grande dama, assina, com os dedos inchados que serviam de complemento aos braços longos e magros, a dolorosa história da fome nas favelas. Autografa, como nenhum outro autor jamais fizera, 600 exemplares numa tarde. E teria até ultrapassado esse número recorde se não perdesse tempo fazendo perguntas aos compradores. Pergunta-lhes onde moram, se são felizes, se amam a esposa, se os filhos lhes dão trabalho.
Quando chegou a vez de um senador, cujo programa era “O povo acima de tudo”, as câmeras fotográficas registram para todos os leitores do país a longa dedicatória: “Espero que o senhor dê aos pobres o que eles precisam e que deixe de embolsar os impostos recebidos. Sinceramente, …”
Os primeiros dez mil exemplares foram vendidos em uma semana apenas na cidade de São Paulo. Na semana seguinte uma segunda tiragem, de vinte mil exemplares, abastece as cidades do Brasil. Logo passam de 100 mil. As autoridades, “comovidas”, dão fim à favela para ali construir um novo bairro. Mas isso ninguém sabia ainda. Carolina, tornada famosa, é muito mal recebida pelos vizinhos ao voltar para casa.
Vejam a Carolina. Madame agora é da nobreza. Ganhou muito dinheiro escrevendo sobre nós e vai nos deixar sem dividir.
ELA SE MUDA SOB UMA CHUVA DE TOMATES
Uma mulher negra joga uma pedra no seu filho José Carlos e o rosto dele se tinge de sangue.
Oito dias depois, quando a escritora se muda para uma casa de cinco cômodos com banheiro, gás encanado e luz elétrica, e uma “fonte” na pia, Carolina teve que enfrentar a multidão ameaçadora, que nunca a perdoará por haver escrito:
Tenho pavor dessas mulheres da favela. Tudo querem saber. A língua delas é como os pés de galinha. Tudo espalham.
Os vizinhos se deitaram na frente do caminhão para impedi-lo de sair. Quando o motorista enfim se arriscou a dar a partida, uma chuva de tomates podres e de detritos atingiu a mudança da incompreendida.
A partida é lenta, mas o caminho para a glória e as honrarias é rápido.
No Rio de Janeiro, capital do país, Carolina de Jesus, cuja obra será traduzida em treze idiomas (na França, a editora Stok a publica com o título Le Dépotoir), aquela que todo mundo quer ver e tocar, é recebida como uma princesa no hotel Copacabana Palace. No registro de entrada ela assinala: “Solteira, três filhos”. Seu apartamento dá para uma piscina de sonho. No seu quarto as crianças se soltam, pulando de cama em cama, brincando com os interruptores, entupindo a privada com rolos de papel. Principalmente Vera Eunice, que atira pela janela seus velhos sapatos. Carolina aparece na janela e começa a gritar: “Ei, homem branco, não afana os sapatos da minha filha não, hein!”
Quando lhe fazem ver que esse comportamento não é adequado, esclarece:
Preciso de um tempo para me acostumar. No meu próximo livro falarei dos homens ricos. Mas vou precisar de farta documentação.
Robert Collin
Paris Match n. 682, maio de 1962
Vamos reunir memórias de Carolina?
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